Expansão desigual do crédito

O crédito bancário no Brasil deve crescer 8,9% neste ano, segundo projeções consolidadas na Pesquisa Febraban de Economia Bancária. O levantamento, realizado com 20 instituições financeiras, indica que a expansão será liderada pelo crédito direcionado, que deve saltar 11%. Esse segmento inclui financiamentos imobiliários e linhas governamentais voltadas a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).

Em contraste, o crédito livre, onde os bancos definem autonomamente as taxas e condições, tende a avançar apenas 7,1%. Essa disparidade reflete um ambiente de juros elevados e maior cautela das instituições frente ao risco de calote, especialmente nas operações sem garantia real ou lastro público.

Inadimplência familiar dispara

A preocupação central dos executivos não é a falta de demanda, mas a qualidade do crédito concedido. A expectativa de inadimplência na carteira livre subiu para 6,1% ao final de 2026, ante 3% registrados em 2024. Dados do Serasa corroboram esse cenário: mais de 51% da população adulta brasileira está negativada, com dívidas médias superiores a R$ 6.800 por pessoa.

O dado mais alarmante para a gestão de risco bancário é a mudança de sentimento dos bancos. Enquanto em agosto 38% dos gestores temiam aumento da inadimplência familiar, hoje essa proporção salta para 65%. Isso sinaliza que o endividamento das famílias atingiu um patamar insustentável, limitando a capacidade de pagamento mesmo com mercado de trabalho aquecido.

Impacto na estratégia empresarial

Para fundadores e gestores, o recuo no crédito livre representa um desafio de capital de giro. Com a queda da projeção de crescimento do crédito livre para pessoas jurídicas de 3,9% para 3,5%, as empresas terão menos acesso a financiamento barato via bancos tradicionais. A concorrência com o mercado de capitais torna-se crucial para captar recursos sem depender exclusivamente da banca comercial.

Por outro lado, o fortalecimento do crédito direcionado a empresas (projeção de 13,4%) oferece uma janela de oportunidade para MPMEs que se qualificam a programas governamentais. A estratégia vencedora envolve alinhar a captação de recursos a editais públicos e fundos garantidores, mitigando o custo financeiro elevado do mercado livre.